Eu escrevo, tu escreves, ele escreve. Mas, juntos, nós não escrevemos

Quando o ato de escrever se torna um gosto ou uma necessidade profissional, cada um descobre um estilo, assim também acontece com os profissionais que trabalham em assessoria de imprensa. E quanto mais próximo da sonoridade de sua comunicação oral for esse estilo, mais próximo terá chegado de sua escrita ideal. E aqui não estamos falando de reproduzir vícios de linguagem, aceitáveis apenas no falar. Mas de cadência, de conseguir transmitir, por meio de caracteres, sentimentos que, em uma conversa, dependeriam de entonação e emoção.

Para o assessor de imprensa, em sua prática diária, escrever é compor uma música, com direito a harmonia própria, sem perder de vista que há uma mensagem ali a ser repassada, uma história que precisa chegar com fidelidade ao interlocutor. E é um ato solitário. Não se escreve a quatro mãos. A quatro mãos você costura uma linda colcha de patchwork, mas com cada pedacinho mantendo a individualidade.

E aí chegamos a um aspecto importante e geralmente negligenciado nas mal traçadas linhas: a pontuação. Saber pontuar é quase tão importante quanto contar a história. Porque é ela que dará a cadência mencionada acima e imprimirá dramaticidade, humor, insegurança, incerteza. Arriscaria dizer que a pontuação é alma enquanto as palavras são o corpo do texto.

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“Calma. Respira. Senta aí. Quer água? Café? Não, brigadeiro eu não vou fazer, esquece.  Tá louca? Tomou um pé na bunda e ainda vai engordar? Tá, desculpe. Eu sei que não devia ter falado desse jeito. Não foi um pé na bunda. Vocês romperam, chegaram a um acordo. Vão continuar amigos. Vem cá: ele também disse que não te merecia? Não, eu não conversei com ele. É que é um discurso meio, digamos, usual para quem quer sair à francesa de uma relação. Ah, desculpe de novo. Ele não queria terminar. Está confuso.

Sei.

Acho que eu preciso de um café.

Agora pega essa caixa de lenços, se concentra em tentar parar de soluçar por dez minutos porque, chorando há doze horas e sem dormir, você está me lembrando uma personagem da Disney. E não é nenhuma das princesas. Ah, não! Não começa de novo.”

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Manter seu estilo não significa escrever sempre da mesma maneira. Cada canal vai demandar um tipo de texto e, assim como não pega bem ir a um velório com o look da balada, os documentos de um mesmo autor deverão estar em conformidade com o objetivo da publicação.

Um artigo científico, por exemplo, requer um protocolo mais formal, fiel aos aspectos técnicos, mas nada impede um toque de Midas para ser compreendido até pelo mais leigo dos leitores. Essa é uma das portas para o sucesso da escrita: simplificar. Mas só abre essa porta quem tem a chave do “conhecimento de causa”. Só escreve de maneira simples, objetiva e direta quem sabe exatamente sobre o que está falando.

Engana-se quem acredita que o artigo recheado de palavras difíceis e pouco usuais fica intenso e robusto. Fica é chato. Não raro, um material assim é confundido com um texto bem escrito e que valora o conteúdo.

Nas assessorias de imprensa esse é um erro recorrente. Para “vender o peixe” ou conseguir a aprovação do cliente, o redator nada de braçada nos mares do adjetivismo nos press releases – “A melhor barra de cereais de todos os tempos, com ingredientes naturais cultivados nos campos paradisíacos das isoladas ilhas da Polinésia Francesa” – e erra feio: o material de divulgação fica pobre e o jornalista não vai ler mais que o lead para não pegar nojo de barras de cereais, além de acreditar que a única especialidade de sua assessoria é encher linguiça. Ah! E não existem campos de cereais na Polinésia Francesa.

Sempre é bom lembrar da frase atribuída a Leonardo Da Vinci: “a simplicidade é o último grau da sofisticação.”

Quem? O quê? Onde? Quando? Por quê?

O uso de expressões em ordem direta (sujeito + verbo + predicado) parece uma construção pobre, mas é só direto. A resposta para as cinco perguntas-base do jornalismo também é uma técnica que funciona para a produção de conteúdo. Antes de começar, se concentre em respondê-las para encontrar o rumo do seu texto: quem? O quê? Onde? Quando? Por quê?

Prefira frases curtas

Às vezes, as frases longas serão necessárias para não quebrar a mensagem ou por uma questão de semântica. Mas ao optar por frases curtas, o autor tem menos chance de errar ou de abusar de outros vícios da escrita, como o excesso de apostos, gerundismos, repetição de palavras e o famigerado “queísmo” – o abuso da palavra “que”, que (opa!), por sua versatilidade, pode prestar serviço como pronome, conjunção, passando pelo papel de advérbio e navegando nos mares da partícula expletiva (ah! Agora falei difícil…rs) – entre outras funções.

Repetir palavras também não pega bem. E não apenas porque denota pouco vocabulário, mas torna o texto maçante, parecendo aquelas músicas de sofrência composta com dois acordes. E sabe uma técnica infalível para evitar mais esse probleminha técnico no ato de escrever? Leia.

Abuse daquilo que você aprendeu juntinho com escrever. Leia o que você escreve em voz alta porque seus ouvidos são um apurado corretor de frases feias e mal construídas. Leia tudo. Pode continuar lendo suas mensagens no WhastApp, mas tente dar uma chance para outros autores, além da sua lista de contatos. Se você não gosta dos clássicos, deixe Balzac descansar em paz. Mas com 129 milhões de livros no mundo não é possível que não tenha um que não vá lhe interessar. Leia a Bíblia, leia histórias eróticas, leia até bula de remédio. Mas, por favor, leia.

WAL REIS – GERENTE DE CONTEÚDO DA ATITUDECOM

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